“A arte existe, porque a vida não basta!” - Ferreira Gullar
Depois de passar sete dias em São Paulo
num frio de rachar, cá estamos de volta ao Nordeste num calor de derreter o
juízo. Dessa vez, retomando algo que há um bom tempo não fazemos: cruzar
estados num ônibus, com uma trupe de dezesseis pessoas, viajando de praça em
praça, convidando a população local a alterarem suas rotinas para verem,
comerem, sentirem... TEATRO.
Artesanato de Teresina,
Piauí
Foto: Régis falcão
“E louvo, pra começar
Da vida o que é bem maior
Louvo a esperança da gente
Na vida, pra ser melhor
Quem espera sempre alcança
Três vezes salve a esperança!
Louvo quem espera sabendo
Que pra melhor esperar
Procede bem quem não pára
De sempre mais trabalhar
Que só espera sentado
Quem se acha conformado” –
Torquato Neto – “Louvação”
Nossa primeira parada é Teresina, capital do Piauí, fundada há 161 anos. Aqui é a terra natal do poeta,
jornalista e tropicalista Torquato
Neto.
A princípio as apresentações aconteceriam na Praça Pedro II, mas a possibilidade de chuva nos levou a
abrigar as primeiras apresentações da circulação em espaços fechados. Para
facilitar nossa logística, nos hospedamos no centrão da cidade, bem próximo ao
local das apresentações e oficina.
Hoje foi o dia do espetáculo “Flor de Macambira”, no Theatro 4 de Setembro, um espaço recém reformado,
com recursos de som e iluminação próprios, com capacidade para cerca de 500
pessoas. Antes do início da apresentação, passamos a cena da mata completa para
o administrador do teatro autorizar o uso do fogo em cena. Acertados todos os
pontos necessários para a segurança geral, fomos todos nos aprontar para começar
a brincadeira. Delicioso ver a casa cheia, com muita gente retornando da
apresentação de ontem da “Farsa da
Boa Preguiça”, e
tantas outras vindo pelo efeito do boca a boca e divulgação nos meios de
comunicação. Adentramos o teatro ao som do cavalo marinho com o público
vibrando junto, acompanhando o instrumental com palmas e comentários divertidos.
Praça Pedro II - 1940 -
Teresina - Theatro 4 de Setembro ao fundo.
(Foto:Arquivo Fundac)
Está sendo bem interessante pra nós nos
pôr à prova com relação ao uso de espaços diversificados. Venho percebendo que
entramos numa fase de estudo cênico espacial tanto com a “Farsa...” quanto com
a “Flor...”, espetáculos com proposta de encenação voltada para as ruas que
ganham novos sentidos e significados em espaços fechados.
No caso da “Flor...”, o aparato técnico
do teatro contribuiu em muito para garantir aos sentidos do público os
estímulos que a peça evoca, bem como delinear e sofisticar o uso das nuances e
na música, na iluminação e nas cenas. Em contraposição, na “Farsa...” tenho a
impressão de que a peça necessite de um diálogo mais direto com o público, uma
espécie de diálogo sincero e despretensioso que muitas vezes só é possível na
rua.
Outro ponto importante que vale a pena
ressaltar é que “Flor...” dialoga com as referências de vida das pessoas,
através do bumba-meu-boi e o cavalo marinho, folguedos que são uma fonte
inesgotável de inspiração para nós desde o processo de montagem da peça, e que
fazem parte da cultura tradicional do Piauí e Maranhão. Após a apresentação,
foi muito bom alimentar a alma com os depoimentos das memórias dessa gente.
"Flor de
Macambira" - Cena da Mata em Teresina, Piauí
Foto: Bruno Vinelli
E a roda começa a girar! Gratidão a
todas e todos os envolvidos na concretização desse pontapé inicial. Abrimos o
projeto com muita energia e já sinto que será bastante enriquecedor desempenhar
nosso ofício em contato com "tanta, muita, diferente gente", seguindo
as palavras e a poesia do Gonzaguinha...
“E aprendi que se depende sempre
De tanta, muita, diferente gente
Toda pessoa sempre é as marcas
Das lições diárias de outras
tantas pessoas” - Gonzaguinha - "Caminhos do Coração"
Procissão das Sanfonas, em
Teresina, Piauí
Foto: Régis Falcão
Estar viajando pelo Nordeste do Brasil sempre
me faz retomar a consciência de como somos uma região extremamente plural, uma
região de cores fortes, temperatura quente e de muita sede de cultura.
Até a volta, Teresina!
Seguiremos viagem rumo à segunda cidade
da circulação, Amarante/PI.
Ainda tem muito chão pra pisar.
Roda, Amarante!
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