sábado, 4 de maio de 2013


“A arte existe, porque a vida não basta!” - Ferreira Gullar

        

Depois de passar sete dias em São Paulo num frio de rachar, cá estamos de volta ao Nordeste num calor de derreter o juízo. Dessa vez, retomando algo que há um bom tempo não fazemos: cruzar estados num ônibus, com uma trupe de dezesseis pessoas, viajando de praça em praça, convidando a população local a alterarem suas rotinas para verem, comerem, sentirem... TEATRO.

 
Artesanato de Teresina, Piauí

Foto: Régis falcão


“E louvo, pra começar
Da vida o que é bem maior
Louvo a esperança da gente
Na vida, pra ser melhor
Quem espera sempre alcança
Três vezes salve a esperança!
Louvo quem espera sabendo
Que pra melhor esperar
Procede bem quem não pára
De sempre mais trabalhar
Que só espera sentado
Quem se acha conformado” – Torquato Neto – “Louvação”


Nossa primeira parada é Teresina, capital do Piauí, fundada há 161 anos. Aqui é a terra natal do poeta, jornalista e tropicalista Torquato Neto.


A princípio as apresentações aconteceriam na Praça Pedro II, mas a possibilidade de chuva nos levou a abrigar as primeiras apresentações da circulação em espaços fechados. Para facilitar nossa logística, nos hospedamos no centrão da cidade, bem próximo ao local das apresentações e oficina.


Hoje foi o dia do espetáculo “Flor de Macambira”, no Theatro 4 de Setembro, um espaço recém reformado, com recursos de som e iluminação próprios, com capacidade para cerca de 500 pessoas. Antes do início da apresentação, passamos a cena da mata completa para o administrador do teatro autorizar o uso do fogo em cena. Acertados todos os pontos necessários para a segurança geral, fomos todos nos aprontar para começar a brincadeira. Delicioso ver a casa cheia, com muita gente retornando da apresentação de ontem da “Farsa da Boa Preguiça”, e  tantas outras vindo pelo efeito do boca a boca e divulgação nos meios de comunicação. Adentramos o teatro ao som do cavalo marinho com o público vibrando junto, acompanhando o instrumental com palmas e comentários divertidos.



Praça Pedro II - 1940 - Teresina - Theatro 4 de Setembro ao fundo.
 (Foto:Arquivo Fundac)


Está sendo bem interessante pra nós nos pôr à prova com relação ao uso de espaços diversificados. Venho percebendo que entramos numa fase de estudo cênico espacial tanto com a “Farsa...” quanto com a “Flor...”, espetáculos com proposta de encenação voltada para as ruas que ganham novos sentidos e significados em espaços fechados.


No caso da “Flor...”, o aparato técnico do teatro contribuiu em muito para garantir aos sentidos do público os estímulos que a peça evoca, bem como delinear e sofisticar o uso das nuances e na música, na iluminação e nas cenas. Em contraposição, na “Farsa...” tenho a impressão de que a peça necessite de um diálogo mais direto com o público, uma espécie de diálogo sincero e despretensioso que muitas vezes só é possível na rua.


Outro ponto importante que vale a pena ressaltar é que “Flor...” dialoga com as referências de vida das pessoas, através do bumba-meu-boi e o cavalo marinho, folguedos que são uma fonte inesgotável de inspiração para nós desde o processo de montagem da peça, e que fazem parte da cultura tradicional do Piauí e Maranhão. Após a apresentação, foi muito bom alimentar a alma com os depoimentos das memórias dessa gente.



"Flor de Macambira" - Cena da Mata em Teresina, Piauí

Foto: Bruno Vinelli



E a roda começa a girar! Gratidão a todas e todos os envolvidos na concretização desse pontapé inicial. Abrimos o projeto com muita energia e já sinto que será bastante enriquecedor desempenhar nosso ofício em contato com "tanta, muita, diferente gente", seguindo as palavras e a poesia do Gonzaguinha...

“E aprendi que se depende sempre
De tanta, muita, diferente gente
Toda pessoa sempre é as marcas
Das lições diárias de outras tantas pessoas” - Gonzaguinha - "Caminhos do Coração"


 
Procissão das Sanfonas, em Teresina, Piauí

Foto: Régis Falcão


Estar viajando pelo Nordeste do Brasil sempre me faz retomar a consciência de como somos uma região extremamente plural, uma região de cores fortes, temperatura quente e de muita sede de cultura.


Até a volta, Teresina!

Seguiremos viagem rumo à segunda cidade da circulação, Amarante/PI.

Ainda tem muito chão pra pisar.

Roda, Amarante!


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