...15 horas e 30 minutos, aproximadamente, concluímos o primeiro carregamento da turnê Roda Ser Tão. Os lugares da nova casa aos poucos vão sendo preenchidos até que a porta se fecha e partimos rumo a mais uma aventura. Viagem longa! Muito longa! Finalmente Teresina...No primeiro olhar ficou notório a modificação geográfica, clima, vegetação... Ê brasilsão grande. Mesma região, estados tão diferentes. Diferentes num olhar raso, horizontal já que acredito que haja diversas semelhanças estruturais. Não é esse o objetivo.
Ruas
estreitas, carros estacionados de maneira desordenada dificultaram e muito o percurso
do ônibus durante nosso trajeto até a nova residência. Pelas ruas a sensação de
que estávamos em uma região central. Lojas, pessoas andando, vendedores
ambulantes compunham a paisagem que se apresentava diante dos olhos. Finalmente
chegamos ao hotel. Hotel Velho Monge na rua do teatro, perfeito, estávamos
próximo ao local de trabalho.
Nova mudança
de casa. Agora os novos moradores residiam em números. O meu 32. Todos
acomodados, locais de apresentação fechados e visitados, partimos para a janta
e o descanso merecido. Dia seguinte, combinamos descarregar todo o material.
Chegada a hora nos encontramos no local marcado. Eu e alguns amigos já
esperávamos o restante do grupo apreciando um excelente líquido gelado.
Apreciávamos uma a uma observando as pessoas que comungavam do mesmo desejo. Todos
chegam e o trabalho começa. O pior! O detestável! O incrível
DESCARREGAMENTO!!!!. Tudo guardado podíamos agora desfrutar do prazer de no dia
seguinte não mais ter que carregar tanto peso. A noite seguiu bem. Algumas boas
amizades novas e aventuras inesperadas. Viagem sem aventura é foda!
Agora é pra
valer! Teresina fica na lembrança e partimos rumo a Amarante. Incrível como a
cada apresentação a noção de efêmero ganha
novas roupagens. Duas apresentações na capital piauiense e bem diferentes. A
Farsa rolou em uma galeria. Espaço reduzido sala não apropriada, mas com uma
galera afim de ver teatro. A Flor no belíssimo teatro 4 de Setembro no centro
de Teresina. A sensação que tenho é que na primeira apresentação entramos em
baixa voltagem e aos poucos o ritmo foi se destacando. Lembro de ter pensado em
como o espaço interfere diretamente na apresentação. Sei que corro o risco, na
verdade estou certo de estar caindo num lugar comum quando re – afirmo a importância
da interferência espacial na realização da obra teatral. Por outro lado, o fato
de sempre refletir sobre esse aspecto está muito mais relacionado, pelo menos
neste momento, as descobertas que fazemos a cada nova apresentação do que no
desejo de domínio conceitual.
Se os
conceitos são frutos de reflexões, de experiências que a partir da repetição
nos ganha pela comunicação que dela se pode criar afirmo, sem medo de errar,
que fizemos uma boa apresentação, mas a principio sustentarei a tese de que a
Farsa foi meio preguiçosa.
Bom, já agora
devo alertar ao leitor que falo de uma experiência que mesmo tendo sido
realizada em coletividade não só dos atores, da equipe por trás, mas
principalmente no diálogo com o público, falo aqui de uma sensação pessoal, de
pensamentos, sentimentos muito subjetivos. Neste sentido, as palavras que vos
fala são unicamente sensações minhas e, portanto reais já que foram vividas. O
bom desse espaço (o do Blog) é que podemos o observar de várias maneiras. No
momento penso ser importante enfatizar o poder subjetivo que pensar sobre o que
realizamos nos possibilita. Isso se torna claro nas conversas com os amigos de
grupo, nos relatos do público, ou seja, por mais que haja uma polifonia de
sensações vos trago a minha e divido meus aprendizados e minhas inquietações.
Claro que tudo isso na medida do possível já que as palavras me dão medo e
conseguir externar aquilo que guardamos no íntimo é um exercício dos mais difíceis.
Tentando
retomar o mote da Farsa da Boa Preguiça acredito que o mais me marcou foi o
fato de ter registrado na lembrança uma última apresentação em praça publica a
céu aberto e com uma plateia energizante. Isso não significa dizer que o
publico que tivemos aqui não foi bom, pelo contrario, foi perceptível o
interesse de todos os que estavam presentes. Então porque trazer a tona essa
discussão? Pensando nisso cheguei a alguns pontos importantes: 1- a cada nova
apresentação entendo melhor o sentido de efêmero para o teatro; 2- novos
espaços exigem sempre uma atenção redobrada; 3- as reações da plateia
re-alimentam o espetáculo; 4- um grande exercício para o ator é sustentar uma
qualidade energética em cena acompanhadas por limpeza de gestos, boa projeção
vocal e um jogo sempre vivo entre atores e plateia.
Falar de nossa
primeira apresentação dessa nova jornada é pensar claramente no caminho percorrido
e os resultados alcançados quanto ao domínio técnico daquilo que escolhemos
como profissão, como vida. A Farsa foi preguiçosa, mas foi o esquente, o início
do campeonato e, a preguiça dela não estava na encenação, mas no equilíbrio do
que tínhamos para cumprir juntamente com o que ainda nos resta. O espetáculo
foi muito bem recebido pelo publico. Depois de alguns anos fazendo esse
trabalho começamos a perceber algumas nuances sensoriais que emanam da plateia
e nos atingem do mesmo modo que nossas ações atingem a eles, positivamente ou
negativamente. Saiu com a sensação de que harmonizamos nossa comunicação e a
preguiça que tanto falo que tanto me incomodou no inicio do espetáculo foi se
diluindo e pude perceber que não estávamos preguiçosos muito menos a peça.
Estávamos criando uma nova relação com uma nova plateia. Valeu Teresina.

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