domingo, 5 de maio de 2013

Adversidades ou Ser Tão Arame


Thiago Santino executando a iluminação de Flor de Macambira, no Theatro 4 de Setembro, em Teresina, Piauí.
Foto: Bruno Vinelli


Boa a vida de técnico/iluminador quando se tem o material adequado às necessidades da apresentação, quando se tem outros técnicos auxiliando...

A conversa tá boa, etc e tal e tudo isso, mas...


... mas quando você está em uma cidade com cerca de 20 mil habitantes, a maravilhosa Amarante (PI), cheia de belezas naturais... onde não tinha uma mesa de luz disponível para aluguel!


Passado a apreensão inicial, começamos a pensar em maneiras de fazer "a coisa" acontecer. Tivemos que fazer o possível e impossível para que o espetáculo acontecesse minimamente conforme idealizado. Ligamos refletores direto do rack de iluminação nas casas... foi uma tremenda correria, e que felizmente deu tudo certo.


 
Eletricista no alto do poste

Foto: Bruno Vinelli


O que importa é que o público adorou ir ao teatro. Deixamos aquela pequena sementinha no coração de todos e todas.


E que venha Pedreiras/MA! Roda!!!

Thiago Santino

sábado, 4 de maio de 2013

Amarante-PI




































"Que encanto natural o seu aspecto encerra!
Junto à paisagem verde, a igreja branca, o bando
Das casas, que se vão, pouco a pouco, apagando
Com o nevoento perfil nostálgico da serra..." 

(Trecho do poema Amarante do poeta amarantino Da Costa e Silva)


“A arte existe, porque a vida não basta!” - Ferreira Gullar

        

Depois de passar sete dias em São Paulo num frio de rachar, cá estamos de volta ao Nordeste num calor de derreter o juízo. Dessa vez, retomando algo que há um bom tempo não fazemos: cruzar estados num ônibus, com uma trupe de dezesseis pessoas, viajando de praça em praça, convidando a população local a alterarem suas rotinas para verem, comerem, sentirem... TEATRO.

 
Artesanato de Teresina, Piauí

Foto: Régis falcão


“E louvo, pra começar
Da vida o que é bem maior
Louvo a esperança da gente
Na vida, pra ser melhor
Quem espera sempre alcança
Três vezes salve a esperança!
Louvo quem espera sabendo
Que pra melhor esperar
Procede bem quem não pára
De sempre mais trabalhar
Que só espera sentado
Quem se acha conformado” – Torquato Neto – “Louvação”


Nossa primeira parada é Teresina, capital do Piauí, fundada há 161 anos. Aqui é a terra natal do poeta, jornalista e tropicalista Torquato Neto.


A princípio as apresentações aconteceriam na Praça Pedro II, mas a possibilidade de chuva nos levou a abrigar as primeiras apresentações da circulação em espaços fechados. Para facilitar nossa logística, nos hospedamos no centrão da cidade, bem próximo ao local das apresentações e oficina.


Hoje foi o dia do espetáculo “Flor de Macambira”, no Theatro 4 de Setembro, um espaço recém reformado, com recursos de som e iluminação próprios, com capacidade para cerca de 500 pessoas. Antes do início da apresentação, passamos a cena da mata completa para o administrador do teatro autorizar o uso do fogo em cena. Acertados todos os pontos necessários para a segurança geral, fomos todos nos aprontar para começar a brincadeira. Delicioso ver a casa cheia, com muita gente retornando da apresentação de ontem da “Farsa da Boa Preguiça”, e  tantas outras vindo pelo efeito do boca a boca e divulgação nos meios de comunicação. Adentramos o teatro ao som do cavalo marinho com o público vibrando junto, acompanhando o instrumental com palmas e comentários divertidos.



Praça Pedro II - 1940 - Teresina - Theatro 4 de Setembro ao fundo.
 (Foto:Arquivo Fundac)


Está sendo bem interessante pra nós nos pôr à prova com relação ao uso de espaços diversificados. Venho percebendo que entramos numa fase de estudo cênico espacial tanto com a “Farsa...” quanto com a “Flor...”, espetáculos com proposta de encenação voltada para as ruas que ganham novos sentidos e significados em espaços fechados.


No caso da “Flor...”, o aparato técnico do teatro contribuiu em muito para garantir aos sentidos do público os estímulos que a peça evoca, bem como delinear e sofisticar o uso das nuances e na música, na iluminação e nas cenas. Em contraposição, na “Farsa...” tenho a impressão de que a peça necessite de um diálogo mais direto com o público, uma espécie de diálogo sincero e despretensioso que muitas vezes só é possível na rua.


Outro ponto importante que vale a pena ressaltar é que “Flor...” dialoga com as referências de vida das pessoas, através do bumba-meu-boi e o cavalo marinho, folguedos que são uma fonte inesgotável de inspiração para nós desde o processo de montagem da peça, e que fazem parte da cultura tradicional do Piauí e Maranhão. Após a apresentação, foi muito bom alimentar a alma com os depoimentos das memórias dessa gente.



"Flor de Macambira" - Cena da Mata em Teresina, Piauí

Foto: Bruno Vinelli



E a roda começa a girar! Gratidão a todas e todos os envolvidos na concretização desse pontapé inicial. Abrimos o projeto com muita energia e já sinto que será bastante enriquecedor desempenhar nosso ofício em contato com "tanta, muita, diferente gente", seguindo as palavras e a poesia do Gonzaguinha...

“E aprendi que se depende sempre
De tanta, muita, diferente gente
Toda pessoa sempre é as marcas
Das lições diárias de outras tantas pessoas” - Gonzaguinha - "Caminhos do Coração"


 
Procissão das Sanfonas, em Teresina, Piauí

Foto: Régis Falcão


Estar viajando pelo Nordeste do Brasil sempre me faz retomar a consciência de como somos uma região extremamente plural, uma região de cores fortes, temperatura quente e de muita sede de cultura.


Até a volta, Teresina!

Seguiremos viagem rumo à segunda cidade da circulação, Amarante/PI.

Ainda tem muito chão pra pisar.

Roda, Amarante!


sexta-feira, 3 de maio de 2013

Agora é pra valer!




...15 horas e 30 minutos, aproximadamente, concluímos o primeiro carregamento da turnê Roda Ser Tão. Os lugares da nova casa aos poucos vão sendo preenchidos até que a porta se fecha e partimos rumo a mais uma aventura. Viagem longa! Muito longa! Finalmente Teresina...No primeiro olhar ficou notório a modificação geográfica, clima, vegetação... Ê brasilsão grande. Mesma região, estados tão diferentes. Diferentes num olhar raso, horizontal já que acredito que haja diversas semelhanças estruturais. Não é esse o objetivo.
Ruas estreitas, carros estacionados de maneira desordenada dificultaram e muito o percurso do ônibus durante nosso trajeto até a nova residência. Pelas ruas a sensação de que estávamos em uma região central. Lojas, pessoas andando, vendedores ambulantes compunham a paisagem que se apresentava diante dos olhos. Finalmente chegamos ao hotel. Hotel Velho Monge na rua do teatro, perfeito, estávamos próximo ao local de trabalho.
Nova mudança de casa. Agora os novos moradores residiam em números. O meu 32. Todos acomodados, locais de apresentação fechados e visitados, partimos para a janta e o descanso merecido. Dia seguinte, combinamos descarregar todo o material. Chegada a hora nos encontramos no local marcado. Eu e alguns amigos já esperávamos o restante do grupo apreciando um excelente líquido gelado. Apreciávamos uma a uma observando as pessoas que comungavam do mesmo desejo. Todos chegam e o trabalho começa. O pior! O detestável! O incrível DESCARREGAMENTO!!!!. Tudo guardado podíamos agora desfrutar do prazer de no dia seguinte não mais ter que carregar tanto peso. A noite seguiu bem. Algumas boas amizades novas e aventuras inesperadas. Viagem sem aventura é foda!
Agora é pra valer! Teresina fica na lembrança e partimos rumo a Amarante. Incrível como a cada apresentação a noção de efêmero ganha novas roupagens. Duas apresentações na capital piauiense e bem diferentes. A Farsa rolou em uma galeria. Espaço reduzido sala não apropriada, mas com uma galera afim de ver teatro. A Flor no belíssimo teatro 4 de Setembro no centro de Teresina. A sensação que tenho é que na primeira apresentação entramos em baixa voltagem e aos poucos o ritmo foi se destacando. Lembro de ter pensado em como o espaço interfere diretamente na apresentação. Sei que corro o risco, na verdade estou certo de estar caindo num lugar comum quando re – afirmo a importância da interferência espacial na realização da obra teatral. Por outro lado, o fato de sempre refletir sobre esse aspecto está muito mais relacionado, pelo menos neste momento, as descobertas que fazemos a cada nova apresentação do que no desejo de domínio conceitual.
Se os conceitos são frutos de reflexões, de experiências que a partir da repetição nos ganha pela comunicação que dela se pode criar afirmo, sem medo de errar, que fizemos uma boa apresentação, mas a principio sustentarei a tese de que a Farsa foi meio preguiçosa.
Bom, já agora devo alertar ao leitor que falo de uma experiência que mesmo tendo sido realizada em coletividade não só dos atores, da equipe por trás, mas principalmente no diálogo com o público, falo aqui de uma sensação pessoal, de pensamentos, sentimentos muito subjetivos. Neste sentido, as palavras que vos fala são unicamente sensações minhas e, portanto reais já que foram vividas. O bom desse espaço (o do Blog) é que podemos o observar de várias maneiras. No momento penso ser importante enfatizar o poder subjetivo que pensar sobre o que realizamos nos possibilita. Isso se torna claro nas conversas com os amigos de grupo, nos relatos do público, ou seja, por mais que haja uma polifonia de sensações vos trago a minha e divido meus aprendizados e minhas inquietações. Claro que tudo isso na medida do possível já que as palavras me dão medo e conseguir externar aquilo que guardamos no íntimo é um exercício dos mais difíceis.
Tentando retomar o mote da Farsa da Boa Preguiça acredito que o mais me marcou foi o fato de ter registrado na lembrança uma última apresentação em praça publica a céu aberto e com uma plateia energizante. Isso não significa dizer que o publico que tivemos aqui não foi bom, pelo contrario, foi perceptível o interesse de todos os que estavam presentes. Então porque trazer a tona essa discussão? Pensando nisso cheguei a alguns pontos importantes: 1- a cada nova apresentação entendo melhor o sentido de efêmero para o teatro; 2- novos espaços exigem sempre uma atenção redobrada; 3- as reações da plateia re-alimentam o espetáculo; 4- um grande exercício para o ator é sustentar uma qualidade energética em cena acompanhadas por limpeza de gestos, boa projeção vocal e um jogo sempre vivo entre atores e plateia.
Falar de nossa primeira apresentação dessa nova jornada é pensar claramente no caminho percorrido e os resultados alcançados quanto ao domínio técnico daquilo que escolhemos como profissão, como vida. A Farsa foi preguiçosa, mas foi o esquente, o início do campeonato e, a preguiça dela não estava na encenação, mas no equilíbrio do que tínhamos para cumprir juntamente com o que ainda nos resta. O espetáculo foi muito bem recebido pelo publico. Depois de alguns anos fazendo esse trabalho começamos a perceber algumas nuances sensoriais que emanam da plateia e nos atingem do mesmo modo que nossas ações atingem a eles, positivamente ou negativamente. Saiu com a sensação de que harmonizamos nossa comunicação e a preguiça que tanto falo que tanto me incomodou no inicio do espetáculo foi se diluindo e pude perceber que não estávamos preguiçosos muito menos a peça. Estávamos criando uma nova relação com uma nova plateia. Valeu Teresina.

CARA BOA E BRILHO NO OLHO




O que seria das circulações se não houvessem os encontros, as trocas e as oficinas.  Momento importantíssimo para conhecer os grupos locais, suas realidades e seus trabalhos. Nessa oficina do Ser Tão, dividimos com os participantes exercícios que executamos no nosso dia a dia e que servem para nossa busca, no aperfeiçoamento do nosso trabalho artístico. Em Teresina, trocamos com essa turma instigada, sempre de cara boa e brilho no olho! Obrigado a todos que se jogaram às 9:00 da manhã, em um feriado nublado!



Por
Thardelly Lima

Hoje é dia de "Flor..."






“Ê, boi/ ê, boi/ ê, boi do Piauí
Quem não dançar esse boi/ não pode sair daqui”

Luiz Gonzaga e Gonzaguinha – “Boi Bumbá”

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Dia do Trabalha(a)dor

Preparação para apresentação da "Farsa da Boa Preguiça": Zé Guilherme se transformando em Aderaldo Catacão, em Teresina, Piauí.
Foto: Bruno Vinelli


Primeiro de maio, dia do trabalhador. Quando a maioria dos trabalhadores está de folga, os trabalhadores da arte, seja de entretenimento, ou não, seguem na contra mão. Trabalhamos nas noites, nos finais de semana, nos feriados e nos horários mais diversos e adversos.

Hoje é um dia importantíssimo, pois iremos encenar a “Farsa da Boa Preguiça”, de Ariano Suassuna, em um projeto de circulação pelo Myriam Muniz, da Funarte... no dia do trabalhador.

De um lado o poeta Joaquim Simão (o vagabundo) e do outro o ricaço Aderaldo Catacão. Aderaldo diz: “Se há um homem no mundo pra eu ter raiva esse é um. Pobre, preguiçoso e orgulhoso. E ele ainda se faz de feliz só pra me fazer raiva!”. Isso é o que Tom Zé chama de "Defeito de Fabricação" que nós, mestiços Brasileiros temos em abundância. Continuando... “Num tá vendo que eu não acredito num negócio desse! Um homem feliz morrendo de fome? Agora, eu não. Eu tenho três carros, vinte casas...” É aquela velha questão do TER no lugar do SER. Para mim esse conflito só irá se resolver quando a maioria das pessoas na face da terra conseguirem equilibrar as necessidades entre o ser e o ter... ambos tão necessários. Outro poeta fala que “letras de macarrão fazem poema concreto”.

Quem gosta de andar de ônibus? Quem não quer se alimentar bem? Ter um lugar com conforto para repousar após um dia de farra ou de trabalho? Ah! se o mundo fosse diferente!... Mas tudo mudou!!! Já temos um negro como presidente dos USA e os militares não estão mais no poder, e se produz tanto no Brasil que estamos erradicando a miséria... Porra nenhuma! Um país rico não é um país sem fome, pelo contrário, um país rico é um país faminto de educação e cultura, que gasta 15% do seu PIB com educação, que gasta 8% com a cultura e muito mais com saúde, com transporte, que não tem impostos sobre alimentação básica e após conseguir isso, aí sim, podemos iniciar o equilíbrio entre o ter e o ser.

Hoje a noite vai ser linda. Estamos cumprindo nosso papel. Beijos e abraços para todos e todas no dia de quem trabalha a dor.

Zé Guilherme